Territórios Recombinantes
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Um… até breve… com toda a doçura de Daniela Castro
nov 18th, 2008 by Paloma | 2 Comments »

…por Dani Castro…

Isso vai ser longo. São muitas as entradas nesses territórios, e eu espero que a introdução não dissipe o interesse pela discussão que segue. A saber: as impressões que podemos colocar em palavras dos encontros entre tantas pessoas, “lugares” e trocas; entre tantas tomadas de consciência advindas das pesquisas artísticas – que se misturam às pesquisas (sobretudo) pessoais, acadêmicas, estéticas, éticas e políticas, que vimos emergir desses encontros em Belo Horizonte, Florianópolis e Salvador.

Foi numa troca com o Menotti – o primeiro editor deste blog -, quando ele achou um texto da Miwon Kwon chamado “O Lugar Errado”, traduzido pelo Jorge Menna Barreto e revisado por mim, que finalmente localizamos o lugar dos Territórios Recombinantes.

Se esperamos que o território seja uma articulação pura entre espaço e informação, nas palavras dele, “um espaço informado – isto é, com forma”, essa arquitetura não se revela sem que se perceba sua volatilidade e insuficiência. Como quando, por exemplo, a pessoa pega um avião e vai parar em um destino “errado”, só porque ele tinha o mesmo nome.

É isso que acontece em Valparaíso, peça de Don DeLillo que serve como ponto de partida para Miwon Kwon analisar o valor do lugar (e de se estar onde se está). Na peça, Michael Majeski tem que ir para Valparaíso, em Indiana, para uma viagem corriqueira de negócios. Mas, por alguma confusão nos itinerários da companhia aérea, ele se descobre a caminho de cidades homônimas na Flórida e no Chile (aparentemente, há ao menos 4 Valparaísos no mundo).

Estou assistindo a decolagem ao vivo no vídeo. Estou no avião, estou no meu assento. Há um monitor à frente. Eu olho para o monitor e o avião está decolando. Eu olho para fora e o avião está decolando. E então? O avião está decolando fora da cabine e o avião está decolando dentro da cabine. Eu olho para o monitor, eu olho para a terra.

Respondendo à pergunta do por quê ele não havia percebido que estava tomando um destino que não o planejado, Majeski responde:

Sim. Foi estranho. O avião parecia grande demais, largo demais para um vôo inter-estadual. … E eu não disse nada. Eu fiquei intimidado pelos sistemas. A enorme sensação de poder a minha volta. Sendo carregado e respirando. Como eu poderia me impor frente a essa força? Os sistemas elétricos. Os motores funcionando… A sensação de sustento da vida. O oxigênio nas máscaras… Eu me senti submisso. Eu tive que me submeter aos sistemas. Eles eram todo-poderosos e totalmente sabedores. Se eu estava num assento marcado. Pense a respeito. Se os computadores e detectores de metal e a equipe uniformizada e os cachorros cheiradores de bomba permitiram que eu chegasse até o meu assento marcado e me deram um cobertor da empresa que eu podia tirar do plástico, então era à esse lugar que eu pertencia. Era assim que eu pensava naquele momento.

Percebe-se aqui que o personagem acaba no Chile não por distração, mas porque ele reconhece uma inusitada forma de pertencimento: uma que não está ligada a nenhuma localidade específica, mas a um “sistema de movimentação”. O que nos importa é que a preocupação central de DeLillo não é tanto a originalidade do espaço pós-moderno confirmado por sua arquitetura (multicentral ou multicentralizado), e sim a onipresença da tecnologia de transmissão como força organizadora de nossas vidas e mentes.

“Ao invés de conseguirmos fazer algum sentido do espaço, é o espaço que faz sentido de nós, atua sobre nós”, diz Kwon.

O Territórios Recombinantes se porpôs a criar encontros onde coletivamente faríamos sentido do espaço que ocupávamos durante o evento (a conversa-debate das sextas-feiras e as leituras de projetos aos sábados). O TR pensou a questão do espaço e o trânsito nele menos como uma contradição entre a nostalgia pelo contato físico em meio à compactação informática do mundo e a euforia gerada pelas promessas de conectividade constante, e mais em termos de pensar a amplitude dessa aparente oposição enquanto relações de complementariedade.

Invertemos a lógica do trânsito individual (dos artistas e profissionais da arte em residências e festivais pelo mundo, por exemplo) pelo trânsito do próprio projeto. É o evento que se desterritorializa e vai até os artistas. Os participantes não têm que ser nômades, mas ocupam o lugar de anfitriões. Foi menos uma experiência de mapeamento, tendo em vista que “mapear” já pressupõe métodos e coordenadas estabelecidas a priori, e mais a tentativa de criar um espaço para trocas sobre o fazer e pensar artísticos. Os espaços dos encontros não foram vistos como pontos num “sistema de movimentação” e sim como lugares de intertextualidade; territórios recombinantes.

O TR focou sua atenção em projetos artísticos realizados com a utilização de meios eletrônicos e digitais (forte presença do vídeo; vídeo-instalações, net arte, instalações de arte generativa, arquiteturas interativas, programação, etc). Podemos, então, esperar de um empreendimento como esse que ele nos esclareça não apenas sobre a arte contemporânea e a arte tecnlógica, mas sobretudo sobre o conjunto formado pela sua reunião; que ele possa ligar duas regiões que em geral são tratadas separadamente pela crítica e talvez conseguir esboçar uma visão compreensiva  sobre esse conjunto. Porque compreender não é necessariamente concluir, arriscando generalizações. Nem tão pouco é tentar substituir um conceito em seu compartimento de origem, mas fazê-lo funcionar agora para nós. Compreender é fazer andar, é pôr em movimento estando consciente do lugar a ser percorrido.

Esses encontros se deram em meio a apresentação de trabalhos prontos, em processo e ainda no papel, sempre com respostas precisas dos artistas convidados – Eder Santos, Luiz Duva, Tiago Romagnani, Danillo Barata e Marcus Bastos – como dos próprios participantes. Um feedback comum dos participantes após cada evento em cada cidade era o de que essa dinâmica fazia com que “nós nos conhecêssemos a nós mesmos”. Um espaço de conhecimento (técnico, artístico, pessoal) enorme, percorrido sem sair do auditório.
Tem mais por vir…

*vídeos: Jorge Menna Barreto 

Lugares Moles, 2007

vídeo-instalação em 3 canais, 60min, cada

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